sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESCRITA CERTA 
POR LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


POST POST


Não poderia haver melhor postagem de retorno de um carteiro de poeta do que esse Poema em linha reta assinado por Fernando Pessoa, inspirado pelo "espírito" Álvaro de Campos. 
Até porque ele transmite com fidelidade literária e metafórica as experiências vividas na carne por este reles carteiro nos últimos anos.

Eu volto determinado a ser mais agressivo com os pragmáticos com pinta de politicamente corretos, disposto à luta com os críticos teóricos que não assumem a responsabilidade pelo suposto resultado de suas verdades absolutas.

Mas não se enganem. Eu levo desaforo para casa. E ofereço a outra face. Quem não leva desaforo para casa, não tem casa, tem esconderijo. Quem responde a ofensa com outra ofensa, não acredita que outro mundo é possível. Na verdade, quer o mesmo mundo velho cheio de fronteiras para os outros, desde que seus privilégios diplomáticos sejam garantidos.

Não estou falando só da velha e da nova direitas deste país. Falo também da direita que vive dentro da esquerda, sob máscaras retóricas.

Agora, só acredito em homens capazes de suportar o que o povo suporta, como Lula. E em mulheres como Dilma, que saem da tortura para entrar na história.

Não acredito mais em quem só comprova o que diz em laboratórios acadêmicos ou pesquisas por amostragem.

Enfim, o carteiro do poeta está de volta por linhas tortas e retas.
.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

HILLÁRYA
GOL DE PLACA 2: HILLARY CUSPINDO FOGO


Depois do baile que levou no fim de semana da dupla Luis Inácio – Celso Amorim, a Secretária de Estado Hillary Clinton está cuspindo fogo pelos olhos, nariz, ouvidos e garganta.

Brandindo a palmatória contra os invasores de seu jardim – Brasil e Turquia – aproveitou para realinhar em torno de si as crianças do seu jardim de infância, algumas das quais  ameaçavam juntar-se aos “neófitos” invasores.

Atropelando a diplomacia, requentou a série de sanções econômicas contra o Irã, e apresentou-as em nome do seu Clube dos 5 + 1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China, mais a Alemanha) ao Conselho de Segurança da ONU, que agora deverá debater a questão.

Mas seu movimento denota algumas frinchas. Primeiro (ver artigo do Wall Street Journal, por Peter Spiegel, Jay Solomon e Joe Lauria), teve de abrandar a versão mais dura, que previa sanções no setor energético, justamente as que a China e Rússia mais recalcitravam em propor. Restringiu-se a questões de armamento, transporte (sob alegação do risco de transporte de armas) e financeiras, envolvendo instituições que estivessem sob suspeita de envolvimento com importação de armas.

Segundo, deixou claro que seu movimento tem também um componente interno, em momento em que os EUA vão rumo a eleições para o Senado em novembro, quando a maioria democrata estará sob risco. Nesses termos, o esforço de Hillary pode ser também o de manter em seu jardim os falcões norte-americanos, que, diante do acordo com a Turquia e Brasil, praticamente já pediam uma intervenção militar de Israel contra o Irã (ver editorial do mesmo WSJ em 17/05/2010).

Por trás dessa pressa em desacreditar a via diplomática negociada e sustentar a via das sanções, está também o esforço de demonstrar a hegemonia norte-americana sobre a região do Oriente Médio. Além disso, há o esforço continuado de impedir o crescimento regional do Irã – não apenas na sua alegada vontade de criar armas nucleares – mas no âmbito energético e econômico.

Se olharmos para o mapa da região, o Irã não sai tão mal na foto. Em primeiro lugar, alegar falta de democracia (e não tenho a menor simpatia pela “república islâmica”, nem por qualquer outra que se baseie em discriminações étnicas, religiosas, culturais, etc.) para colocar o Irã no pelourinho é de uma hipocrisia sem limites. Onde está a democracia na Arábia Saudita, no Egito, no Kuwait, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, que, no entanto, são muito bem recebidos no regaço do governo norte-americano?

Em segundo lugar, o Irã, controlado pelo Conselho dos Aiatolás (cujo crescimento político, aliás, teve uma ajuda do Ocidente lá atrás, quando eram vistos como uma alternativa à esquerda e à “ameaça soviética”), é um perigo regional em termos econômicos. Algumas comparações com países da região mostram o potencial iraniano de “desestabilizar” a “pax romana” dos Estados Unidos, que mantém mais ou menos sob controle quase todos o Oriente Médio. As cifras monetárias absolutas estão em US$.

População: Irã 66,4 milhões; Arábia Saudita, 26,6 mi, Egito, 78,8 mi.

PIB: Irã, 335,7 bilhões, Egito, 190,2 bi, Arábia Saudita 384 bi. Mas se pularmos para o critério PIB/purchasing power parity, que situa as cifras num grau comparativo em escala mundial, como se todos os países fossem nivelados numa única cotação de valores, esses valores iriam para: Irã: 876 bi; Egito: 471,2 bi; Arábia Saudita: 585,3 bi. Para termos uma idéia, o PIB brasileiro no critério absoluto (também chamado de official exchange rate, é da ordem de 1,499 trilhões de dólares; no comparativo (ppp), 2,02 tri.

Razão Dívida Pública/PIB: Irã, 19,4%; Egito, 79,8%; AS, 20,3%.

População abaixo do nível de pobreza: Irã, 18 %, Egito 20 %, AS, s/d.

Taxa de alfabetização: Irã, 77% (Homens: 83,5%, Mulheres, 70,4%); Egito, 71,4% (H: 83%; M, 59,4%), AS, 78,8 % (H, 84,7%; M, 70,8%).

Razão investimento em educação/PIB: Irã, 5,1%; Egito, 4,2%; Arábia Saudita, 6,8%.

Para não ser acusado de “parcialidade”, usei dados do “World Factbook”, da CIA norte-americana; um dado me pareceu defasado, o da população iraniana, que, em outras fontes, aparece como de 70 milhões ou até de 75. Mas para ser coerente, mantive na tabela comparativa o número da CIA. Pode-se comparar esses números e cifras com os do FMI e do Banco Mundial, por exemplo: as variações serão pequenas, e a escala comparativa entre os países continua muito semelhante.

De um modo geral, a economia egípcia é descrita como um pouco mais diversificada do que a iraniana, e esta, bem mais do que a saudita. Composição do PIB:

Egito: agricultura, 13,1%; indústria, 37,7%; serviços, 49,2%.
Irã: agr., 10,9%; ind., 45,2%; serv. 43,9%.
AS: agr. 3,3%; ind., 60,8%; serv., 36,4%.

Embora dependa das exportações  de petróleo e derivados, a produção industrial do Irã é descrita como em processo de diversificação, e também se aponta no país uma classe média emergente – o que representa um problema político para a república islâmica dos aiatolás.

Ou seja, um Irã desalinhado, que pode se tornar uma superpotência energética e uma potência econômica de médio alcance, é um perigo para a “pax romana” liderada pelos EUA, ainda mais que o país detém a segunda reserva de petróleo do mundo.

O petróleo é também um motivo histórico de conflito entre o país e o ocidente. Em 1951 o governo nacionalista de Mohammed Mossadegh promoveu a nacionalização da indústria do setor, o que enfureceu particularmente os britânicos. Estes tentaram arrastar a ONU numa tentativa de derrubada do governo. Não conseguindo, voltaram-se para os EUA, que consentiram e promoveram, com a “Operação Ájax”, a deposição de Mossadegh. Essa foi também a primeira vez em que os EUA admitiram abertamente a participação num golpe de estado em outro país, embora já tivessem contribuído para a derrubada de governos, sobretudo na América Latina e Caribe.

Toda essa folha corrida mostra que a fúria de Hillary tem razão de sobra para existir. E que a questão vai longe.

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O artigo do Flávio Aguiar foi reproduzido do Blog do Velho Mundo.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

UMA VERDADE INCONVENIENTE

VERSÃO BRASILEIRA, GUILHERME BUENO

Depoimento de quem viveu três anos em Cuba

Eu gostaria de me expressar um pouco aqui sobre os comentários desta recém famosa blogueira cubana (Yioani Sánchez). Eu sou saxofonista, morei três anos na ilha, sem visitar o Brasil neste período, estudei música no ISA (Instituto Superior de Arte de Havana), antigo clube de campo dos turistas norte-americanos antes de 1959.

Fiquei a maioria do tempo em Havana, onde eu estudava, mas em um dos períodos de férias, com a mochila nas costas e pedindo carona, atravessei durante quase dois meses a ilha inteira, de ponta a ponta, passando por todas as capitais e outros lugares, como Placetas, Puerto Padre, Mayarí e Chivirico.

Tentei me manter o mais longe possível dos programas turísticos, pois queria conhecer a Cuba vivida pelos cubanos. Nos três anos em que lá estive minha convivência foi basicamente com os cubanos, no ISA não tem muitos estrangeiros e eu era o único brasileiro.

Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que considero o conteúdo do blog desta cubana uma piada pra quem já viveu em Cuba. Ela criticou a educação em Cuba? O sistema de saúde cubano? A violência na ilha? Não minha gente, não, isso só pode ser piada. Voltei há sete meses de Havana e ontem estava em um consultório médico quando resolvi folhear a droga da revista da manipuladora VEJA e lá estava a blogueira. Escreveu que foi agredida numa manifestação contra a violência.

Manifestação contra a violência em Cuba? Nossa meus amigos, sinto muito, eu vivi três anos na ilha, sou músico, portanto, freqüentava muito os bares nas noitadas de Havana (sempre regadas de muita música), andando por toda a cidade durante a madrugada: foram três anos, e nesses três anos e eu não vi nem sequer uma briga, nem sequer um tapa, nem sequer um puxão de cabelo, e essa cubana me vem dizer que estava numa manifestação contra a violência? Só pode ser piada mesmo.

Até mesmo os cubanos que são contra o regime (na sua imensa maioria jovens que não viveram o país antes de 1959 e que sonham em ir para os EUA, enriquecer, comprar carros luxuosos, jóias, mansões, roupas de grife, etc.) sempre me diziam nas discussões: "Isso é verdade, aqui não deixam ninguém morrer, se você tem algum problema eles te curam" ou "Aqui não precisa ficar preocupado, se tem alguma coisa de bom em Cuba é que é um lugar seguro, aqui não tem a violência do seu país" ou "É verdade, aqui te dão educação grátis e de excelente qualidade, mas não te deixam prosperar, o que significava ganhar muito dinheiro, enriquecer e consumir. Esse desejo surgiu ou intensificou a partir do contato com os milhares de turistas que a ilha recebe por ano e, como o próprio Fidel Castro diz, o turismo foi um mal necessário. Prosperar para nós não é conhecer, aprender e produzir e sim ganhar mais e mais dinheiro para consumir cada vez mais".

Que tristeza ver no que nos transformamos, estamos perdendo a essência do ser humano para enraizar uma essência de consumo, destruindo cada vez mais o nosso planeta e se importando cada vez menos com as milhares de pessoas que não têm nem um prato de comida na mesa, quando têm mesa.

É triste pensar que tantas pessoas que lutaram muito durante uma época bastante conturbada em nosso país, só estavam lutando contra uma ditadura e não contra a desigualdade social, a exploração das pessoas, a miséria, a falta de moradia, a fome. Já em Cuba é muito fácil perceber que estas lutas são claramente as prioridades do governo cubano, se necessita muita falta de sensibilidade para não enxergar isso. Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção quando cheguei a Havana, foi a aparência das pessoas que encontrava pelas ruas.

Percebi que todos tinham uma boa pele, os dentes brancos e em perfeito estado. Tinham a aparência de pessoas fortes e como são fortes os cubanos. Altos e fortes. Logo pensei: "Ué! cadê a fome? Acredito que gente que passa fome, não cresce tanto. Notei isso em todos os lugares que passei, em muitas outras províncias, e não somente em Havana.

Moro na cidade de São Paulo, já viajei para vários outros Estados, e em todas as capitais vi crianças pedindo esmola no farol, crianças morando em baixo de viaduto, crianças vagando pela cidade em plena madrugada.

Eu andei aquela ilha toda e as crianças que encontrei usavam uniforme, o que significava que eram escolares, e caminhavam acompanhadas pelo pai ou pela mãe ou por ambos. Uma vez, indo para Alamar um cartaz na rodovia exibia o índice mundial de crianças que passavam fome e terminava com a seguinte afirmação: "Nenhuma delas é cubana". Eu não vi fome naquele lugar, não vi ninguém esbanjando comida na geladeira, é verdade, mas fome eu não vi. Gente que não toma café, almoça e janta todos os dias? Isso não existe em Cuba.

Nas vezes em que precisei de atendimento médico em Cuba, fui atendido mais rapidamente e melhor que no hospital São Luiz, mesmo tendo aqui um plano de saúde que não é top de linha, mas está logo abaixo. Lá, não tive que pagar pelo atendimento mesmo sendo estrangeiro.

Um amigo espanhol, que estudou comigo, tratou inclusive dos dentes, já que lá todo tratamento é gratuito e na Espanha, assim como no Brasil, a maioria dos planos de saúde não cobre o tratamento dentário. Eu só queria ver essa blogueira na fila do SUS esperando pra fazer uma cirurgia importante, sem saber quando será realizada.

Uma das acusações mais comuns dirigidas ao governo Cubano, é o cerceamento da liberdade de expressão, a frase "liberdade de expressão" virou um slogan contra o regime cubano. Do meu ponto de vista, nada mais contraditório que um brasileiro criticando a liberdade de expressão em Cuba.

O Brasil atualmente, segundo dados de 2008 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, possui 10,0% (cerca de 19,1 milhões) de analfabetos e 21,0% (cerca de 40 milhões) de analfabetos funcionais (só sabem assinar o nome). O primeiro passo para a extensão da plena liberdade de expressão de toda a população é a educação. Se um País não dá a possibilidade à grande parte da população (os abaixo da linha da pobreza) para aprender a ler, a escrever, a adquirir conhecimento, a fazer esportes, a aprender formas de arte, se um país não oferece condições mínimas de vida a uma grande massa da população obrigando-a a se preocupar, cotidiana e diuturnamente, apenas com o risco de não ter uma ração alimentar mínima, por falta de dinheiro, está CERCEANDO as possibilidades de liberdade de expressão, que passa ser privilégio dos bem aquinhoados.

Além disso, qual liberdade de expressão nós temos no Brasil? Fora poucas revistas que são lidas por uma minoria quase insignificante, qual o grande meio de comunicação que atinge as grandes massas e que divulgam além do que os grandes conglomerados jornalísticos permitem que seja divulgado?

E tudo isso com um agravante, o mundo cerca a ilha e "ninguém" quer que aquilo dê certo. Depois da queda da União Soviética, Cuba, que economicamente era dependente do seu governo (recebia cerca de 4 a 6 bilhões de dólares anuais em 1990), ficou sem nada, em situação social de calamidade, o chamado "Período Especial", de 1990 a 1996. É preciso analisar toda a evolução de um país que não tinha nada naquela época e hoje mantém uma qualidade de vida, em termos de necessidades essenciais como moradia, saúde, educação e cultura que Cuba tem, você vai ver que não existe país no mundo que melhorou tanto e segue melhorando.

Seu PIB é de 51 bilhões de dólares (o do Brasil é de 2 trilhões de dólares) e, mesmo assim, Cuba ostenta um alto Índice de Desenvolvimento Humano (acima de 0,800); em 2007 o IDH de Cuba foi 0,863 (51° lugar ? 44º se ajustado pelo PNB). Com uma renda tão baixa, se o governo fosse corrupto, o país não seguiria nesta direção, nós brasileiros devíamos saber bem disso. Desenvolvimento econômico não está necessariamente ligado ao desenvolvimento social e Cuba provou isso.

A ilha consegue esse alto índice de desenvolvimento humano no seu país sem instalar grandes corporações, como acontece na maioria esmagadora dos países de terceiro mundo, onde podem pagar um salário baixíssimo para seus funcionários, sugar a matéria prima e pagar baixos impostos.

Pelo contrario, Cuba ainda exporta milhares de médicos, que viajam em missões de solidariedade para centenas de lugares do mundo todo, em países onde se o sistema de saúde não é ruim, ele simplesmente não existe. Mas sobre isso a VEJA não faz uma reportagem, também não faz uma reportagem sobre os milhares de estudantes de classes sociais muito baixas, que provêem de todos os países latino-americanos, inclusive brasileiros, que vão para Cuba estudar medicina e outras centenas em outros cursos, todos eles financiados pelo governo cubano, ganhando moradia, salário mensal, café, almoço, jantar e produtos para higiene pessoal.

Todos esses estudantes estão se formando em Cuba sem pagar um centavo. A universidade de medicina de Cuba é uma das mais bem conceituadas no mundo e a sua valorização em âmbitos internacionais é muito maior que as universidades brasileiras, um médico cubano na Europa consegue trabalho sem dificuldades, mesmo nos dias difíceis que vivemos, isso porque o sistema público de saúde cubano é considerado um dos mais eficazes do mundo.

Ainda assim os mais de mil estudantes brasileiros que estão se formando em Cuba estão encontrando dificuldades para validar seus diplomas no Brasil, sob a alegação de que os brasileiros que estudam em instituições cubanas se formam médicos generalistas básicos; todos os que conhecem o curso que eles fazem em Cuba sabem que isso é uma grande mentira, o que ninguém publica é a verdade, a verdade é que medicina no Brasil é coisa para quem tem dinheiro para pagar, a grande minoria. Com a chegada de médicos brasileiros formados em Cuba, com o projeto de suprir cerca de mil vagas de médicos em comunidades indígenas no interior do país, essa tradição começa a ser rompida e aumenta a tendência de um barateamento no sistema médico do país, mas não, para a maioria do congresso é melhor as pessoas continuarem morrendo do que os custos médicos serem mais baratos

Se eu fosse citar todas as vantagens que a ilha tem sobre nós eu teria que parar de tocar saxofone para me dedicar a escrever um livro, descrevendo todos os detalhes que, na verdade, não são tão detalhes assim, mas que passam despercebidos pelos olhares de muitas pessoas que viajam para lá com uma visão preconceituosa, elitista e não percebem coisas simples, como as crianças brincando pelas ruas de Havana, correndo pra cima e pra baixo, sem sequer seus pais se preocuparem; não importa se têm 5, 10 ou 15 anos, nada vai acontecer com eles lá fora, nenhum menino de 9 anos vai fumar crack e muito menos vender quinquilharias nas esquinas: isso não chega lá, as crianças em Cuba estão na escola, onde elas devem estar.

O narcotráfico, um dos maiores problemas mundiais, em Cuba não entra, o tráfico de drogas é praticamente inexistente se comparado com o restante do mundo, não há droga nos bares ou nas festas freqüentadas pelos jovens cubanos, assim como não há as propagandas massivas de bebidas alcoólicas.

Cultura transborda por todos os cantos, teatros, festivais de cinema, poesia, pintura e música estão por todas as partes e os preços dos espetáculos são acessíveis a todos os cidadãos. Tudo isso muita gente não percebe, isso a VEJA não publica, mas quando aparece uma pessoa com afirmações absurdas sobre a ilha, sem nenhuma fonte confiável para provar o que diz, aí sai na primeira pagina em todos os meios de comunicação, essa passa a ser a grande noticia do nosso país, cheio de "liberdade de expressão".

É fácil para um brasileiro que vive em São Paulo, no Morumbi, na Vila Olímpia, em Ipanema ou na Barra da Tijuca sair criticando a ilha e dizendo que aqui está melhor que lá. Claro que sim! Minha família é de classe média e eu também vivo melhor que os cubanos, mas quantos brasileiros vivem como a gente?

Existem milhões e milhões de brasileiros que dariam a vida para ter as oportunidades que o governo cubano dá para seu povo, para ter uma casa como todos os cubanos têm, para ter atendimento médico gratuito de excelente qualidade, para não ter que se preocupar com a escola dos seus filhos, para ter um prato de comida em cima da mesa. Mas não, nós, cegos, preferimos reparar que lá não tem carne de vaca, que só tem carne de frango, peixe e carne porco, que a variedade dos alimentos não é grande como a nossa ou que eles não têm dinheiro pra comprar um Nike, um IPod.

Vocês devem estar se perguntando se eu não tenho nenhuma critica negativa sobre a ilha, eu digo que é obvio que eu tenho varias, com certeza até mesmo o Fidel Castro tem varias criticas negativas ao seu governo.

A questão não são os erros que eles cometeram ou os acertos, a questão é que a luta do governo cubano é pela melhoria na qualidade de vida de todas as pessoas, é um governo que luta pelo seu povo e faz o impossível para manter todas as condições básicas para o ser humano viver com dignidade.

E tudo isso junto com o bloqueio comercial imposto pelos EUA que impede que o avanço na qualidade de vida dos cubanos siga em ritmo mais acelerado. Não é o Fidel que faz mal para a ilha, quem faz mal para a ilha somos todos nós, que a cercamos, a excluímos e seguimos prejudicando-os com nossas políticas internacionais que prejudicam um país que carece de muitos recursos financeiros.

Nós não podemos esquecer de que, antes de fazer criticas sobre a conduta do governo cubano para com seu povo, temos que pensar primeiro no contexto político que viveu e vive a ilha de Cuba; um erro pode significar o fim de mais de cinqüenta anos de luta pela soberania de um povo, o fim de uma população saudável e muito bem educada.

Lembrem-se de que o Haiti já foi o país com a melhor qualidade de vida da América Latina, situação que durou até a política norte-americana "América para os americanos": hoje o Haiti é o país mais pobre da América.

Antes de criticar as limitações impostas pelo governo para a saída dos cubanos do país, informem-se. Em primeiro lugar, os cubanos que tentam visitar familiares nos EUA assim como cubanos que vivem nos EUA e tentam visitar os familiares em Cuba, encontram muito mais resistência por parte do governo norte-americano do que por parte do governo cubano.

Essa resistência se dá pelo fato do governo norte-americano pressionar os cubanos que querem visitar seus familiares a assumir a nacionalidade norte-americana; como muitos só querem ir visitar a família nos EUA e depois voltar acabam tendo muita dificuldade para conseguir o visto. O mesmo acontece com outros países que impõem milhares de restrições para evitar que o cubano consiga o visto para a viagem.

Quem já viveu em Cuba um tempo razoável sabe que isto é verdade, inclusive na televisão cubana passam propagandas insistindo para os norte-americanos liberarem os cubanos que lá vivem para visitar seus familiares em Cuba. Em Cuba existe uma lei que diz que se um cubano sair de Cuba como turista, ele pode ficar, no máximo, onze meses fora do País e, se esse tempo for ultrapassado, ele perde a nacionalidade por um tempo limitado. Muitas pessoas também não compreendem isso.

Lembrem-se que Cuba é um regime Socialista, lá tudo é do Estado e o Estado garante todas as necessidades básicas da população (moradia, comida, educação e saúde); seria injusto que um cubano viajasse, trabalhasse fora, ganhasse bastante dinheiro, e depois voltasse para Cuba usufruir de todas essas vantagens, mas sem contribuir com nada. O Estado é o povo, o povo é o Estado. Com relativa freqüência, muito cubanos que viajam para Espanha ou outros países não voltam mais, pois logo conseguem um bom emprego, graças a excelente educação que tiveram em Cuba, mas os filhos ficam em Cuba.

Quando você pergunta por que eles não foram também, te respondem: "Ah! lá a escola é muito cara, eu não teria condições de pagar". Muitos destes cubanos ainda têm a cara-de-pau de criticar o governo do seu país. Eu acho que não precisa de muito para perceber que isso não está correto.

Eu gostaria de saber quando é que a gente vai parar de aceitar que todos esses meios de comunicação nos manipulem, na defesa dos interesses de uma elite que não se importa com ninguém além dela mesma. Quando vamos parar de prestar atenção nesses canais de televisão, nessas rádios, jornais e revistas que mentiram pra nós o tempo todo, manipulando pesquisas eleitorais, escondendo informações e divulgando calúnias, quando vamos parar de aceitar coisas como "rouba mas faz" ou um presidente que escreve livros e livros e quando assume a presidência diz pra esquecer tudo que ele disse.

Que convicção tem uma pessoa dessas que muda de uma hora para outra? Acho que nunca teve convicção em nada. Hoje vivemos talvez o início de uma era que nunca vivemos, a América Latina está sendo cada vez mais tomada por governos de esquerda que realmente estão se importando com a nossos povos, como o Hugo Chávez na Venezuela, o Evo Morales na Bolívia, o Rafael Correa no Equador, o José Mujica no Uruguai e o Lula no Brasil.

Só resta saber se vai ser apenas uma época ou se realmente vamos mudar. Esses presidentes não podem fazer nada se nós não ajudarmos, talvez se nosso povo se mobilizasse mais, nosso governo poderia realizar os seus projetos sem tantos obstáculos.

Pra essa blogueira eu gostaria de dizer que ela deveria sentir vergonha das injustiças que comete com um país que conquistou tudo que Cuba conquistou mesmo sendo o único país que olha para os EUA e diz NÃO. Como pode ela dizer que todas essas conquistas foram falsas? Como pode ela, na reportagem para a revista VEJA dizer que nenhum estrangeiro que viveu em Cuba pode admirar aquele regime?

Como ela pode falar assim pelos outros? Eu vivi em Cuba e não só admiro o seu regime como acredito nele, acredito que Cuba foi e continua sendo a grande esperança para os povos deste planeta que carecem dos recursos básicos para um ser humano viver. Eu tenho certeza que esses alunos de medicina, muitos oriundos de famílias que não tiveram condições de proporcionar todas as oportunidades que todos os seres humanos deveriam ter por direito, e muitas outras pessoas solidárias a Cuba e que lá viveram, sentem a mesma admiração que eu por tudo de maravilhoso que lá foi construído e pela pouca esperança que nos resta, mas que passa a ser tão grande quando olhamos para nossos queridos irmãos cubanos.

Eu acredito que num futuro distante o Fidel Castro Ruz não somente será lembrado como um grande homem, mas sim como um ícone da luta pela justiça e pela igualdade social em nosso planeta, um ícone ainda maior que nosso querido comandante Che Guevara. Bom seria se o mundo não esperasse sua morte, como aconteceu com o Che, para reconhecermos isso. Eu espero estar vivo para ver isso e espero que até lá o governo cubano se mantenha forte e resistente para que, no futuro, não precisemos olhar para trás arrependidos e dizer: "Que pena, naquela época a situação podia ter mudado, mas não mudou", como já vimos acontecer muitas vezes na nossa historia.

segunda-feira, 15 de março de 2010

PIGuerra ou PIGarro
O Escrevinhador Rodrigo Vianna reproduziu texto do jornalista Mauro Carrara sobre um suposto plano midiota, batizado nos bastidores das redações como "Tempestade no Cerrado", cujo objetivo é atingir a candidatura da ministra Dilma, o próprio presidente Lula e o PT. Leia abaixo a íntegra do artigo:

Operação “Tempestade no Cerrado”: o que fazer?
por Mauro Carrara

(O PT é um partido sem mídia...
O PSDB é uma mídia com partido).

“Tempestade no Cerrado”: é o apelido que ganhou nas redações a operação de bombardeio midiático sobre o governo Lula, deflagrada nesta primeira quinzena de Março, após o convescote promovido pelo Instituto Millenium.A expressão é inspirada na operação “Tempestade no Deserto”, realizada em fevereiro de 1991, durante a Guerra do Golfo.

Liderada pelo general norte-americano Norman Schwarzkopf, a ação militar destruiu parcela significativa das forças iraquianas. Estima-se que 70 mil pessoas morreram em decorrência da ofensiva.

A ordem nas redações da Editora Abril, de O Globo, do Estadão e da Folha de S. Paulo é disparar sem piedade, dia e noite, sem pausas, contra o presidente, contra Dilma Roussef e contra o Partido dos Trabalhadores.

A meta é produzir uma onda de fogo tão intensa que seja impossível ao governo responder pontualmente às denúncias e provocações.

As conversas tensas nos "aquários" do editores terminam com o repasse verbal da cartilha de ataque.

1) Manter permanentemente uma denúncia (qualquer que seja) contra o governo Lula nos portais informativos na Internet.

2) Produzir manchetes impactantes nas versões impressas. Utilizar fotos que ridicularizem o presidente e sua candidata.

3) Ressuscitar o caso “Mensalão”, de 2005, e explorá-lo ao máximo. Associar Lula a supostas arbitrariedades cometidas em Cuba, na Venezuela e no Irã.

4) Elevar o tom de voz nos editoriais.

5) Provocar o governo, de forma que qualquer reação possa ser qualificada como tentativa de “censura”.

6) Selecionar dados supostamente negativos na Economia e isolá-los do contexto.

7) Trabalhar os ataques de maneira coordenada com a militância paga dos partidos de direita e com a banda alugada das promotorias.

8) Utilizar ao máximo o poder de fogo dos articulistas.

Quem está por trás

Parte da estratégia tucano-midiática foi traçada por Drew Westen, norte-americano que se diz neurocientista e costuma prestar serviços de cunho eleitoral.


É autor do livro The Political Brain, que andou pela escrivaninha de José Serra no primeiro semestre do ano passado.

A tropicalização do projeto golpista vem sendo desenvolvida pelo “cientista político” Alberto Carlos Almeida, contratado a peso de ouro para formular diariamente a tática de combate ao governo.

Almeida escreveu Por que Lula? e A cabeça do brasileiro, livros que o governador de São Paulo afirma ter lido em suas madrugadas insones.

O conteúdo

As manchetes dos últimos dias, revelam a carga dos explosivos lançados sobre o território da esquerda.

Acusam Lula, por exemplo, de inaugurar uma obra inacabada e “vetada” pelo TCU.

Produzem alarde sobre a retração do PIB brasileiro em 2009.

Criam deturpações numéricas.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, num espetacular malabarismo de ideias, tenta passar a impressão de que o projeto “Minha Casa, Minha Vida” está fadado ao fracasso.

Durante horas, seu portal na Internet afirmou que somente 0,6% das moradias previstas na meta tinham sido concluídas.

O jornal embaralha as informações para forjar a ideia de que havia alguma data definida para a entrega dos imóveis.

Na verdade, estipulou-se um número de moradias a serem financiadas, mas não um prazo para conclusão das obras. Vale lembrar que o governo é apenas parceiro num sistema tocado pela iniciativa privada.

A mesma Folha utilizou seu portal para afirmar que o preço dos alimentos tinha dobrado em um ano, ou seja, calculou uma inflação de 100% em 12 meses.

A leitura da matéria, porém, mostra algo totalmente diferente. Dobrou foi a taxa de inflação nos dois períodos pinçados pelo repórter, de 1,02% para 2,10%.

Além dos deturpadores de números, a Folha recorre aos colunistas do apocalipse e aos ratos da pena.

É o caso do repórter Kennedy Alencar. Esse, por incrível que pareça, chegou a fazer parte da assessoria de imprensa de Lula, nos anos 90.

Hoje, se utiliza da relação com petistas ingênuos e ex-petistas para obter informações privilegiadas. Obviamente, o material é sempre moldado e amplificado de forma a constituir uma nova denúncia.

É o caso da “bomba” requentada neste março. Segundo Alencar, Lula vai “admitir” (em tom de confissão, logicamente) que foi avisado por Roberto Jefferson da existência do Mensalão.

Crimes anônimos na Internet

Todo o trabalho midiático diário é ecoado pelos hoaxes distribuídos no território virtual pelos exércitos contratados pelos dois partidos conservadores.

Três deles merecem destaque...

1) O “Bolsa Bandido”. Refere-se a uma lei aprovada na Constituição de 1988 e regulamentada pela última vez durante o governo de FHC. Esses fatos são, evidentemente, omitidos. O auxílio aos familiares de apenados é atribuído a Lula. Para completar, distorce-se a regra para a concessão do benefício.

2) Dilma “terrorista”. Segundo esse hoax, além de assaltar bancos, a candidata do PT teria prazer em torturar e matar pacatos pais de família. A versão mais recente do texto agrega a seguinte informação: “Dilma agia como garota de programa nos acampamentos dos terroristas”.

3) O filho encrenqueiro. De acordo com a narração, um dos filhos de Lula teria xingado e agredido indefesas famílias de classe média numa apresentação do Cirque du Soleil.

O que fazer

Sabe-se da incapacidade dos comunicadores oficiais. Como vivem cercados de outros governistas, jamais sentem a ameaça. Pensam com o umbigo.

Raramente respondem à injúria, à difamação e à calúnia. Quando o fazem, são lentos, pouco enfáticos e frequentemente confusos.

Por conta dessa realidade, faz-se necessário que cada mente honesta e articulada ofereça sua contribuição à defesa da democracia e da verdade.

São cinco as tarefas imediatas...

1) Cada cidadão deve estabelecer uma rede com um mínimo de 50 contatos e, por meio deles, distribuir as versões limpas dos fatos. Nesse grupo, não adianda incluir outros engajados. É preciso que essas mensagens sejam enviadas à Tia Gertrudes, ao dentista, ao dono da padaria, à cabeleireira, ao amigo peladeiro de fim de semana. Não o entupa de informação. Envie apenas o básico, de vez em quando, contextualizando os fatos.

2) Escreva diariamente nos espaços midiáticos públicos. É o caso das áreas de comentários da Folha, do Estadão, de O Globo e de Veja. Faça isso diariamente. Não precisa escrever muito. Seja claro, destaque o essencial da calúnia e da distorção. Proceda da mesma maneira nas comunidades virtuais, como Facebook e Orkut. Mas não adianta postar somente nas comunidades de política. Faça isso, sem alarde e fanatismo, nas comunidades de artes, comportamento, futebol, etc. Tome cuidado para não desagradar os outros participantes com seu proselitismo. Seja elegante e sutil.

3) Converse com as pessoas sobre a deturpação midiática. No ponto de ônibus, na padaria, na banca de jornal. Parta sempre de uma concordância com o interlocutor, validando suas queixas e motivos, para em seguida apresentar a outra versão dos fatos.

4) Em caso de matérias com graves deturpações, escreva diretamente para a redação do veículo, especialmente para o ombudsman e ouvidores. Repasse aos amigos sua bronca.

5) Se você escreve, um pouquinho que seja, crie um blog. É mais fácil do que você pensa. Cole lá as informações limpas colhidas em bons sites, como aqueles de Azenha, PHA,Grupo Beatrice, entre outros. Mesmo que pouca gente o leia, vai fazer volume nas indicações dos motores de busca, como o Google. Monte agora o seu.

A guerra começou. Não seja um desertor.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

DIPLODURA
DITAMACIA

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terça-feira, 5 de maio de 2009

VEIAS ABERTAS
CRISE DO SENTIDO

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;

Em lugar de ditadura militar, se diz processo. As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.


POST POST

O carteiro acrescenta:

Exclusão é o nome dado ao exílio social, cujo resgate alguns chamam pragmaticamente de "assistencialismo".

Garoto-propaganda de alcolismo é conhecido como fenômeno.

O texto do mestre Eduardo Galeano, do livro De pernas pro ar, editora L&PM, foi publicado na Carta Maior.
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

PALAVRAS DE ORDEM
UMA ODE AO FÓRUM SOCIAL DE BELÉM


O mundo é complicado
Nossa tarefa também

Julgar sem pré-julgar
Demarcar sem excluir
Incluir sem forçar
Somar, fazer bonito
O mundo é infinito

Combater a indiferença
Respeitar a diferença
e o diferente.
Respeitar

Defender a mata sem esquecer o homem
Cultivar a terra sem derrubar a mata
Cultivar o homem

Amparar sem esperar
Esperar sem se iludir
Não desesperar, agir
Não sucumbir
Perseverar

Convencer, conversar
Persuadir sem mentir
Não sofismar,
Argumentar

Gritar abaixo o imperialismo
Viva o povo palestino
Mas ao anti-semitismo dizer não

Aplaudir a bravura
Mas repudiar a bravata
Não usar gravata

Gritar a Amazônia é nossa
Viva o povo brasileiro
Viva a cesta básica e o Prouni
Viva o luz para todos
Em plena floresta amazônica

Gritar abaixo os banqueiros
Que seja a riqueza de todo o povo brasileiro
Abaixo os juros
E a especulação financeira
Fora com o Deus mercado e o Deus dinheiro

Sonhar mas não dormir
Cada amanhecer é um novo dia
O fim de um descanso
Cada pequeno passo um avanço

Conceituar sem preconceitos
Refinar pensamentos
Provocar sem agredir
Polemizar
De vez em quando aplaudir

Perguntar e saber ouvir
Não ouvir sem perguntar
Questionar,
Sempre
Sempre duvidar,
Não simplificar, complicar

Entender é o que interessa
Para poder avançar
Saber, conhecer, decifrar
Interpretar
O saber é infinito
O universo também

O mundo é complicado
Nossa tarefa também

Bernardo Kucinski, janeiro de 2009

POST POST

O carteiro recebeu e entrega aos destinatários. Uma espécie de proporção áurea (ilustração) do outro mundo, o possível, segundo Kucinski.
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O HOMEM DA MALA
A BAGAGEM DE FLÁVIO KOUTZII


Antes de tudo, peço dez culpas (ou mais) aos raros leitores do blogue pelo sumiço. Posso garantir que a ausência de postagens não é abandono ou desistência voluntária. Ao contrário, há momentos na vida em que não é possível escolher o meio de chegar ao fim desejado. Especialmente quando a gente não abre mão dos princípios e do comprometimento com a causa. A não ser quando o dever chama. É o caso.

Flávio Koutzii escreve no RS Urgente:

Há divergências jurídicas.
Há avaliação sobre as motivações e cálculos políticos.
Há os que apenas julgam da conveniência de tocar no assunto.
Há sempre o jogral dos analistas de oportunidade.
(Nunca é hora para eles)

Mas para os que não esqueceram:
Há um grito suspenso no ar.
Há uma dor infinita.
Há um tabu indecente.
Há um seqüestro invisível.
(A honra das Forças Armadas de hoje, reduzida a escudo silencioso, da responsabilidade não assumida das Forças Armadas de ontem no golpe)

É claro que os torturadores têm que ser responsabilizados.
É certo que a anistia não é igual à amnésia.
É evidente que a história não aceita ficar sem sentido, nem com censura, nem com cortes, como um filme proibido.
É certo que não há a mais remota possibilidade de igualar quem lutou contra a ditadura com quem prendeu, torturou e matou pela ditadura.
É certo que esta história tem começo, meio e fim:

e o começo é o golpe de estado,
a derrubada de um governo legal,
a censura aos jornais,
o fechamento dos partidos,
a suspensão do estado de direito,
a perseguição implacável.

As Forças Armadas é quem deram o golpe
(junto com seus aliados civis).
Aqui, a ordem dos fatores altera o produto e o significado.
Eles, a ditadura, nós, a resistência.
Então quem fica ofendido somos nós!
Nós - "os elementos" - cidadãos na nossa opinião, democratas, porque lutamos para restaurá-la.
Espantados, com a covardia dos que não assumem suas responsabilidades

Deram ou não o golpe?
Perseguiram ou não?
Torturaram ou não?
Então, por favor!!!
É inaceitável que as Forças Armadas de hoje fiquem reféns de um passado ditatorial indefensável.
Na verdade, no Brasil, além dos "desaparecidos", há uma grande desaparecida:

A VERDADE HISTÓRICA

História, entendida como reconhecimento dos fatos,
a totalidade das circunstâncias.
A História em tempo real.
A História com muita luz e pouca sombra.
A História para e do povo brasileiro, de todos os brasileiros:
civis e militares.
Tudo, não para o maniqueísmo simplório, mas para respeitar a dignidade e a tragédia de um grande período da história recente do Brasil dos vinte longos anos de chumbo.

Lamentavelmente as Forças Armadas propõem a esquizofrenia como situação permanente.
Não assumem sua responsabilidade.
Desrespeitam o Poder Executivo (legitimado pelo voto).
Atuam como contra-poder.
Logo defendem o que foram.
Logo são hoje o que foram ontem.

Mas isto, não é bem assim.
Isto é uma memória doente.
Verdade amputada.
Simulação inaceitável.
Queremos que os jovens soldados e os jovens oficiais sejam livrados destes grilhões enferrujados.
E se devolvam para este Brasil.
Impressionante de presente
Futuroso.

E haverá que defendê-lo de muitas maneiras:
suas possibilidades,
seu petróleo,
sua Amazônia,
suas fronteiras,
sua economia
e acima de tudo:
sua gente brasileira,
seu futuro,
seu orgulho,
sua história.

POST POST

Na foto roubada emprestada da página do Flávio Koutzii, a verdade histórica transcende a natureza física da mala e aparece como uma cicatriz sem plástica ou silicone. Não há nada que o passado possa fazer para impedir o futuro de acontecer. É tudo uma questão de tempo. É quando, agora ou mais tarde.
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segunda-feira, 7 de abril de 2008

MANIFESTO
MÍDIA LIVRE


O setor da comunicação no Brasil não reflete os avanços que ao longo dos últimos trinta anos a sociedade brasileira garantiu em outras áreas. Isso impede que o país cresça democraticamente e se torne socialmente mais justo.

A democracia brasileira precisa de maior diversidade informativa e de amplo direito à comunicação. Para que isso se torne realidade, é necessário modificar a lógica que impera no setor e que privilegia os interesses dos grandes grupos econômicos.

Não se pode mais aceitar que os movimentos sociais que conquistaram muitos dos nossos avanços democráticos sejam sistematicamente criminalizados, sem condições de defesa, pela quase totalidade dos grupos midiáticos comerciais. E que não tenham condições de informar suas posições com as mesmas possibilidades e com o mesmo alcance à disposição dos que os condenam.

Um Estado democrático precisa assegurar que os mais distintos pontos de vista tenham expressão pública. E isso não ocorre no Brasil.

Também precisa criar um amplo e diversificado sistema público de comunicação, no sentido de produzido pelo público, para o público, com o público. Tal sistema deve oferecer à sociedade notícias e programação cultural para além da lógica do mercado.

Por fim, um Estado democrático precisa defender a verdadeira liberdade de imprensa e de acesso à informação, em toda sua dimensão política e pública. E ela só se dá quando cidadãos e grupos sociais podem ter condições de expressar idéias e pensamentos de forma livre, e de alcançar de modo equânime toda a variedade de pontos de vista que compõe o universo ideológico de uma sociedade.

Para que essa luta democrática se fortaleça, os que assinam este manifesto convidam a todos que defendem a liberdade no acesso e na construção da informação a participarem do 1º Fórum da Mídia Livre, que se realizará na Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos dias 16 e 17 de maio de 2008. Os que assinam esse manifesto apresentam a seguir algumas propostas, preocupações e idéias, que, entre outras, serão debatidas no Fórum de Mídia Livre.

Nos declaramos a favor de que:

- O Estado atue no sentido de garantir a mais ampla diversidade de veículos informativos, da total liberdade de acesso à informação e do respeito aos princípios da ética no jornalismo e na mídia em geral;

- Realize-se com a maior urgência a Conferência Nacional de Comunicação que discutirá, entre outras coisas, um novo marco regulatório para o setor, com o objetivo de limitar a concentração do mercado e a formação de oligopólios;

- A inclusão digital seja tratada com a prioridade que merece e que o investimento nela possibilite o acesso a canais em banda larga a toda a população, para que isso favoreça redes comunitárias (WiFi) e faixas em espectro livre;

- As verbas de publicidade e propaganda sejam distribuídas levando em consideração toda a ampla gama de veículos de informação e a diversidade de sua natureza; que os critérios de distribuição sejam mais amplos, públicos e justos, para além da lógica do mercado; e que ao mesmo tempo o poder público garanta espaços para os veículos da mídia livre nas TVs e nas rádios públicas, nas suas sinopses e meios semelhantes;

- O Estado brasileiro atue no sentido de apoiar as iniciativas das rádios comunitárias e não o contrário, como vem acontecendo nos últimos anos;

- O Estado brasileiro considere a possibilidade de a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos atue na área de distribuição de periódicos, criando uma nova alternativa nesse setor;

- O Cade intervenha no atual processo de concentração de distribuição de periódicos impressos, evitando a formação de um oligopólio que possa atingir a liberdade de informação;

- A Universidade dê sua contribuição para a democracia nas comunicações, em seus cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação Social, formando profissionais críticos que possam contribuir para a produção e distribuição de informação cidadã;

- A revisão do processo de renovação de concessões públicas de rádio e TVs, já que nos moldes atuais ele não passa por nenhum controle democrático, o que possibilita pressões e negociações distantes dos ideais republicanos, levando à formação de verdadeiras capitanias hereditárias na área;

- A sistematização e divulgação de demonstrativos dos gastos com publicidade realizados pelo Judiciário, pelo Legislativo e pelo Executivo, nas diferentes esferas de governo;

- A definição de linhas de financiamento para o aporte tecnológico e também para a constituição de empreendimentos da mídia livre e sem fins lucrativos com critérios diferentes do que as concedidas à mídia corporativa e comercial; e que isso seja realizado com ampla transparência do montante de recursos, juros e critérios para a obtenção de recursos;

- Que há condições para que o movimento social democrático brasileiro e também os veículos da mídia livre mobilizem recursos e esforços para constituir um portal na internet, um portal capaz de abrigar a diversidade das expressões da cidadania e de garantir a máxima visibilidade às iniciativas já existentes no ciberespaço.

POST POST

O Manifesto da Mídia Livre é resultado da mobilização de saites e blogues independentes e de esquerda contra o monólogo da grande mídia.

Segundo Renato Rovai (clique aqui para ler), "Ele foi elaborado a partir de inúmeras conversas entre alguns dos 42 presentes no encontro realizado no Hotel Maksoud Plaza em 8 de março último".

O próximo passo é o 1º Fórum da Mídia Livre que será realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos dias 16 e 17 de maio.

Rovai anuncia também para breve a divulgação de um saite para reunir assinaturas a favor do manifesto pela democratização da mídia no Brasil.
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domingo, 6 de abril de 2008

ODE A BRECHT
PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA

“Privatizaram sua vida, seu trabalho,
sua hora de amar e seu direito de pensar” (...)

E sua água, acrescenta ao poema de Bertolt Brecht a iniciativa privada de sentido público.

Como quem serve no prato de alimento ao faminto, no escuro da fome, o veneno da alma com resto de comida.

A metáfora levanta o véu das municipalizações da Corsan (Companhia Rio-grandense de Saneamento), manifestadas ultimamente por vários prefeitos gaúchos com astúcia e senso de oportunidade, ou melhor, cara de pau e oportunismo.

Isso você não vai ler, ouvir ou ver na imprensa golpista.

Grandes empreiteiras estão de olho no bem mais precioso do presente do futuro da humanidade, os mananciais de água das terras brasileiras.

Já reeditaram inclusive o sistema de capitanias hereditárias, dividiram o país e os estados em regiões.

Cada empreiteira ficou com sua parte do bolo.

O objetivo é privatizar o maior número de empresas públicas de abastecimento de água e saneamento.

Convencer governadores a privatizar as empresas estatais chamaria muita atenção.

Por isso, elas seguem a receita de Jack, o estripador.

Dividir o problema, multiplicar os resultados, somar os esforços e diminuir os riscos de escândalos e protestos populares.

A solução encontrada: comprar prefeitos com um seguro desemprego para corrupto nenhum botar defeito, isso no âmbito municipal, 500 mil reais limpos e livres de impostos, depositados pelo corruptor na conta que o corrompido escolher em qualquer paraíso ou inferninho fiscal.

O conglomerado de empreiteiras oferece inclusive o manual da privatização da água, do qual não consta nenhuma palavra que o denuncie como tal.

No manual também vem sugestão de projeto de lei e orientação de como negociar com vereadores para garantir sua aprovação, além de todo o processo licitatório como manda o figurino.

Seus lobistas e consultores sabem, como ninguém, apresentar esse tema, que começa com a municipalização, passa pelo plano de gestão integrada e termina com a casa pública debaixo da água da privada.

Para legitimar e dar ares de legalidade aos processos de gestão integrada da água, um grupo de empresas participa das licitações municipais, mas só a titular do setor tem o preço mais baixo.

As empresas que participam das licitações para inglês ver têm sua contrapartida nos territórios sob sua cidadania.

É o jogo das cartas marcadas pelo mercado.

No Rio Grande do Sul, o objeto do desejo desses corruptores e corruptos é a Corsan.

Já é de conhecimento público a onda de intenções de municipalizações que se levanta com manifestações de vários prefeitos gaúchos.

Resta saber se, durante a campanha eleitoral deste ano, a privatização da água vai fazer parte dos programas de governo e da propaganda política dos prefeitos candidatos à reeleição e dos vereadores candidatos a aprovar o projeto nas câmaras.

O projeto vai ser mostrado como é, privatização da água, ou vai fantasiado de municipalização?

“Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual” (...)

Embora pareça habitual, trivial e singela a defesa dos interesses das populações dos municípios pelos prefeitos, é bom examinar o que está por trás das aparências, seguindo o conselho entre aspas acima.

A empreiteira que quer controlar a distribuição da água na região oeste do Rio Grande do Sul é uma Ode a Bretch.

Segundo o dicionário, “ode” é uma composição poética do gênero lírico em que se exaltam os atributos de homens ilustres, o amor e outros sentimentos.

Esta ode é uma homenagem aos sentimentos e pressentimentos do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Até porque nada melhor quem mergulha no poema concreto com um trocadilho infame como salva-vidas.
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quarta-feira, 26 de março de 2008

ALELUIA
LAURO RODRIGUES


Velho pampa lendário de outras eras,
onde se erguem lúgubres taperas,
tripudiando quais flâmulas de luto:
nessas tardes de junho, ao sol poente,
parece-me que sinto o que tu sentes
quando o silêncio do teu campo escuto...

A brisa nas carquejas do varzedo,
chorando, confessa que tens mêdo
de enfrentar esta miséria atroz...
E na tristeza sem fim dos corredores
vibram hinos de brados e clamores
contra as algemas da canalha algoz...

Mas não percebes, decrépito campeiro,
que as rondas do abutre carniceiro,
grasnam sobre ti funéreo agouro;
que és o braço do ¨Gigante¨ que mendiga
e ¨deitado em berço explêndido¨ se obriga
a pedir pão sob um dossel de ouro?...

Esquece as condições de teu presente!
Larga o trôpego andar do indigente
e relembra o que fostes em tempos idos...
Deixa a tua lança, adormecida e quieta!
A guerra é de doutrinas... Vem! Desperta
que os dias de porvir serão vividos...

Pois, pressinto na fome de meu filho
que um vulcão de revolta aclara o trilho
por onde segue a procissão dos pais...
Desperta Rio Grande! Chama o Brasil
antes que a voz da bôca de um fuzil
não lhe consinta despertar jamais...

Pobre Pátria de vinte e tantas zonas
que tem no seu ventre o Amazonas
e agoniza de fome nas cidades...
Zôo de macacos galhofeiros,
plagiando o viver dos estrangeiros
desde o Batismo à Universidade...

Tenho pena de ti, - senzala branca! -
dessa coletividade honesta e franca
que de tanto esperar já desespera...
Tuas vísceras são campos de imundícies,
onde o vírus malsão das canalhices
se robustece, cresce e prolifera...

Enquanto isso, cérebros raquíticos,
- sanguessugas de pântanos políticos! -
fomentam leis que não trescalam nada...
Mas não tarda que a aurora do futuro
tinja de escarlete o céu escuro
dos párias desta estância abandonada...

Nesse dia, meu pampa, os teus heróis,
ostentando nas mãos raios de sóis
e cavalgando fagulhas celestiais,
virão beber na fúria dos motins,
o sangue nutrido nos festins
dos que colheram sem semear jamais...

E, então, o marco de uma nova era,
surgirá num ermo de tapera
substituindo o pedestal de imbuia,
para que o povo todo num só grito,
possa bradar da Terra ao Infinito:
ALELUIA!...ALELUIA!...ALELUIA!...

POST POST

Aleluia é a expressão genuína da poesia gaúcha de raiz. Este poema foi publicado no livro Senzala Branca de um gigante acordado, mesmo morto, enquanto nosso tempo anda dormindo.

Lauro Rodrigues é uma das principais inspirações para o carteiro continuar sendo carteiro, sem a pretensão de ser poeta.

A obra dele fala por si e em qualquer tempo.

Não é necessário contar o porquê da sua invisibilidade na cultura nativa.

Porque outro poeta já disse:

- outra história vem que vai contar.

Bom proveito.
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NO BALANÇO DA HISTÓRIA
OS LARANJAS SE ACOMODAM


Apesar de todo o aparato tecnológico e semântico à disposição das grandes corporações da mídia, elas não conseguem enganar o olhar semiótico subliminar dos carteiros e dos poetas.

Especialmente quando a sirene anuncia mais uma desintegração de posse.

– Uoooooool...

Foi a cena que imaginei ao acessar o RS Urgente hoje. A guarda pretoriana invadindo a casa do Marco Weissheimer cheia de segundas intenções, anunciando a sentença.

– Acusado de combater o pensamento único da mídia e ser cúmplice de uma quadrilha de blogueiros revoltados com a concentração da liberdade de opinião, o condenado sem julgamento será extra-editado em outro provedor ou terá que prover a si próprio.

Depois lembrei que a idade média era outro tempo verbal.

Voltei e registro a última postagem do RS Urgente no UOL.

MUDANÇA DE ENDEREÇO

Acabo de receber uma mensagem do UOL comunicando que não tenho mais espaço para blogar e que teria que mudar meu plano de assinatura para fazê-lo. Sendo assim, sem mais delongas, estou migrando para novo endereço:

-
www.rsurgente.blogspot.com

A casa nova já está com as paredes erguidas, mas ainda sem mobília e decoração. Farei isso com o tempo. Então é isso: a partir de agora, o RS Urgente está no blogspot. Basta clicar AQUI para chegar lá.

Primeiro eles oferecem espaços gratuítos para amealharem acessos, venderem patrocínios e valorizarem suas marcas. E não percebemos o quanto somos inocentes úteis, verdadeiros laranjas ingênuos e inconscientes.

Depois eles fazem suas surubas capitalistas, se fundem ou incorporam uns aos outros, rodam a bolsa no mercado de capitais, promovem casamentos de interesses, masturbam investidores e nós não notamos que somos seus garotos de programa e propaganda.

Então, nossa independência começa a incomodar no balanço da história que promovemos com nossa liberdade e já não servimos mais porque o mercado teceu suas teias e garantiu suas presas com a nossa colaboração.

E não podemos mais deixar para depois o que já devíamos ter feito:

- Construir nossas próprias carroças, estradas, balanços, laranjas e blogues em potes.
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MÍDIA EM DEBATE
EM DEFESA DE UMA MÍDIA LIVRE


A mídia contemporânea, disse o escritor francês Paul Virilio, é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra. Os meios de comunicação vêm se concentrando, de forma brutal, no mundo inteiro, nas mãos de grandes empresas.

Marco Aurélio Weissheimer, na
Carta Maior (clique aqui).

O poder midiático no Brasil está concentrado nas mãos de um pequeno grupo de famílias e suas respectivas empresas, que dominam o sistema de produção e difusão de informações e detém a imensa maioria dos recursos de publicidade (públicos e privados). O maior grupo de comunicação do país, a Rede Globo, possui 227 veículos, entre próprios e afiliados. É o único dos grandes conglomerados que possui todos os tipos de mídia, a maioria dos principais grupos regionais e a única presente em todos os Estados brasileiros. Sozinha, a Globo controla mais da metade do mercado televisivo brasileiro. Segundo dados da Associação Nacional de Jornais, relativos ao período 2001-2003, apenas seis grupos empresariais concentram a propriedade de mais da metade da circulação diária de notícias impressas no país. Sozinhos, estes veículos respondem por cerca de 55,46% de toda produção diária dos jornais impressos.

Além do imenso poderio da Globo, outros seis grandes grupos regionais se destacam. A família Sirotsky comanda a Rede Brasil Sul de Comunicações, controlando o mercado midiático no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A família Jereissati está presente no Ceará e em Alagoas. A família Daou tem grande influência no Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. A mídia da Bahia pertence à família Magalhães. No Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os negócios são controlados pela família Zahran. E, por fim, a família Câmara tem grande influência em Goiás, Distrito Federal e Tocantins. Em suas manifestações editoriais, todas essas empresas afirmam a independência como um valor que, supostamente, definiria seu trabalho. Independentes do quê e de quem, exatamente? Essa pergunta nunca é respondida. E não o é, porque a resposta mostraria que o rei está nu!

Qualquer menção à necessidade de democratizar esse cenário é rebatida fortemente por artigos e editoriais enfurecidos destes grupos hegemônicos. Quem defende a democratização da produção e do acesso à informação é imediatamente acusado de “autoritário” e “inimigo da liberdade de imprensa”. O poder das grandes corporações midiáticas é muito forte, estendendo-se também às escolas e universidades que formam os futuros profissionais da comunicação. A imensa maioria de quem se prepara para entrar no “mercado da comunicação” quer arrumar um emprego na Globo, na Folha de São Paulo, na Veja, no Estadão, na RBS, etc. Profissionais ligados direta ou indiretamente a essas empresas garimpam sistematicamente talentos nos bancos escolares. Os professores que procuram navegar contra a corrente são, o mais das vezes, taxados como excêntricos e confinados a guetos.

É importante ter em mente que esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. A realidade midiática mundial não é distinta. O escritor francês Paul Virilio, ao falar sobre o papel da mídia no mundo de hoje, definiu bem o tamanho do problema a ser enfrentado. A mídia contemporânea, disse Virilio, é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra. A justificativa para tal procedimento trafega entre o cinismo e a treva: uma vez afetada a liberdade de imprensa, todas as liberdades estarão em perigo. Cinismo, denuncia, porque esta reivindicação agressiva trata de negar o óbvio: os meios de divulgação e de formação de opinião vêm se concentrando, de forma brutal, no mundo inteiro, nas mãos de grandes empresas.

Mas há boas notícias neste cenário. Nos últimos anos, essa hegemonia de grandes grupos midiáticos começou a ser enfrentada por um crescente número de iniciativas. A internet tornou-se um espaço privilegiado dessas iniciativas, mas não o único. Os movimentos de Software Livre, de rádios comunitárias, de construção de redes de comunicação de movimentos sociais, de sites , blogs e publicações alternativas abriram brechas no bloco monopolista da grande mídia. Além disso, jornalistas que conheceram de perto o funcionamento desses grupos passaram a desenvolver um trabalho de exposição das entranhas da imprensa brasileira. O conjunto dessas iniciativas contribuiu para a acumulação de um inédito capital crítico sobre o poder dessas empresas. Um poder, importante assinalar, que segue muito forte.

No dia 8 de março, um grupo de jornalistas, professores universitários e profissionais da comunicação de várias regiões do país reuniu-se em São Paulo para debater essa realidade. Durante o encontro, consolidou-se a idéia de criar um espaço de encontro e articulação em nível nacional em torno da agenda da democratização dos meios de comunicação no Brasil; democratização da produção e do acesso à uma comunicação de qualidade. No dia 20 de março, foi a vez de Porto Alegre sediar um encontro da mesma natureza.

Um dos princípios básicos que norteou o debate nos dois encontros foi a necessidade de respeitar a diversidade que marca esse movimento, em duas diferentes expressões. Há aqueles que vêem a criação de uma mídia alternativa a que aí está como uma tarefa central. Outros preferem a denominação “independente” para qualificar o objetivo a ser buscado. E outros ainda preferem não se enquadrar em nenhuma dessas categorias.

Todos, porém, concordam com uma coisa: a criação de um espaço nacional de encontro, debates e articulação é muito importante para a superação e modificação do atual cenário midiático brasileiro, marcado por um crescente processo de concentração e de apropriação de bens e serviços públicos por uns poucos grandes grupos privados. A proposta é que esse movimento seja construído passo-a-passo, respeitando a opinião e as particularidades do trabalho de cada um, partindo dos pontos de acordo e visando convergências mais amplas.

Os movimentos articulados em torno do Fórum Social Mundial, como o Software Livre por exemplo, podem servir como inspiração. A defesa de uma comunicação de qualidade, como um bem público e um direito da população é um elemento que unifica a todos que enxergam, no modelo atual, um entrave ao aperfeiçoamento da democracia brasileira.

Falar de uma comunicação de qualidade, neste cenário, significa falar, entre outras coisas, em liberdade de criação, de difusão e de acesso. Significa compartilhar conhecimentos, práticas e iniciativas. As palavras “liberdades” e “compartilhamento” expressam, em boa medida, o que é sonegado hoje à maioria da população. Elas apontam para uma visão generosa de um mundo mais solidário, onde a comunicação, o diálogo com o próximo e a criatividade não são reduzidas à condição de mais uma mercadoria destinada a gerar lucro máximo a custo mínimo.

Esse é o espírito que anima a proposta de construção de um debate para o fortalecimento de uma mídia livre no Brasil, um espaço que propicie o encontro, o diálogo, a criação e a partilha de informações, práticas e experiências. Um espaço que, fundamentalmente, enxergue a comunicação como uma prática a serviço da verdade, da justiça e da liberdade.
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terça-feira, 25 de março de 2008

BANCADA GAÚCHA
HAVIA UM PEDRO NO CAMINHO

O observador do Bancada Gaúcha em Porto Alegre, Pedro Bomfim, caprichou no estilo e literalmente entregou o lixo devidamente reciclado aos leitores do blogue do Jota Charrua e sua tribo.

Parafraseando Sepé Tiaraju, o poeta disse que Pedro diz com todas as letras:

- E
sta terra tem dano!

Talvez seja o sinal de que as coisas estão mandando, ou melhor, mudando.

Bueno, vejam com seus próprios olhos.

CPI DO DETRAN
UMA BARBARIDADE!

Na CPI do Detran, aberta pela Assembléia Legislativa gaúcha, estamos assistindo a um imenso desfile, que só está começando - ainda não divulgaram os endereços dos apartamentos, quem mora e quem morou neles - de exemplos de como a ingenuidade e a inexperiência podem prejudicar a atuação de homens honestos no serviço público. E, assim, permitir que pessoas de má índole se aproveitem para meter a mão no dinheiro público, isto é, no meu e no seu bolso.

Vejam o caso do ingênuo ex-presidente do Detran do governo daquele homem pequeno e cordial que não fez nada, mas apaziguou os gaúchos. O coitado acabou preso só por assinar um contrato sem licitação com uma fundação que não tinha condições de fazer o trabalho para o qual foi contratada e que buscou a ajuda de outras empresas para realizar os serviços.

Tem que ficar bem claro que a responsabilidade dele terminou ai. Afinal, ele contratou a tal fundação e não tem nada mais a ver com o resto. Isto é evidente. Agora, se a tal fundação contratou a empresa da sua própria mulher, de outros parentes, do irmão do seu chefe e dos amigos da governadora, isto é problema desta fundação.

Só o que faltava era acharem que está errado a mulher dele trabalhar e pagar R$ 500 mil para ele dar uma ajeitada na cobertura onde mora com o dinheiro que ganhou no tal contrato com a tal fundação. Além do mais, é proibido mulher de dirigente de autarquia ter empresa? E esta empresa prestar serviço para fundações contratadas pela autarquia que o marido dirige? Onde está escrito? Ele está cheio de razão em dizer que estas coisas não lhe dizem respeito. Onde que se viu?

Depois dele, veio o novo jeito. Um jeito um tanto estranho, mas novo. Afinal, estava precisando dar uma mexida, claro. Então, o novo diretor do Detran, inexperiente, iniciante, com apenas 40 anos de serviço público, chegou e viu que tudo estava errado. Precipitado, ansioso para consertar as coisas, contratou outra fundação, antes de dispensar aquela, sem saber que as duas eram parentes, filhas da mesma mãe. Mas garante que só fez isto porque o bispo pediu, por um ato de caridade.

Naquele momento ele nem teve tempo de pensar que estava fazendo caridade com o meu e o seu dinheiro. O importante era ajudar. Um homem bom como não se encontra mais por ai. Sua única falha, ao meu ver, parece ter sido não atender aos amigos da governadora. Ai, levou um pontapé de um sapato alto, que lhe atingiu até a memória, a consciência, pois não lembra de mais nada.

Como o primeiro, ele também não sabia que a tal fundação, que ele contratou, repassou os serviços para a sua irmã mais velha, aquela mesma que não tinha condições de fazer o trabalho e contratara empresas da mulher, dos parentes, do irmão do seu patrão, dos amigos da governadora, etc. Mas ele fez isso só para evitar o caos. Para não prejudicar o serviço. Fez isto por ser um administrador previdente.

Mas no meio deste monte de gente boa, correta, eficiente, houve alguém que pecou terrivelmente. A Polícia Federal. Onde já se viu, acordar estes homens simples, lícitos, cidadãos comprometidos com a eficiência do Estado, daquela maneira, apontando armas para as suas cabeças? Desde quando é crime algumas pessoas, unidas, ganharem R$ 45 milhões com o trabalho nas suas empresas, que nada mais fizeram que tapar os buracos deixados pela ineficiência do Estado?

Uma barbaridade!

POST POST

Pegando carona no espírito da coisa que o Pedro Bomfim botou na roda, o carteiro e o poeta "cheidi catigoria" perguntam:

- Quem tem medo de altura só chuta rasteiro quando joga futebol soçaite na cobertura?

- Ou só fica na cobertura quando joga futebol soçaite rasteiro quem tem medo de altura?
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