segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Um mundo sem Deus

Por Deonísio da Silva

Em 2007, foram lançados com muito barulho vários livros negando a existência de Deus. Um deles, intitulado Deus, Um Delírio, do respeitado biólogo Richard Dawkins, recebeu elogios de intelectuais que são referência em suas respectivas áreas de atuação, como o romancista britânico Ian McEwan. Dawkins integra o trio de intelectuais vivos mais importantes do mundo, eleitos pela revista inglesa Prospect. Os outros dois são o norte-americano Noam Chomsky e o italiano Umberto Eco. Os EUA e a Europa insistem em olhar para os respectivos umbigos, considerando-se modelo em tudo.

No romance, faz muito tempo que ficaram para trás. Livros como Eu, o Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos, que morreu sem o reconhecimento deles; Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, que está vivo e já recebeu o Prêmio Nobel; Os Passos Perdidos, ambientado na Venezuela, do cubano Alejo Carpentier; Incidente em Antares, de Erico Veríssimo, e Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado, entre outros, mostram como o romance, como gênero, é uma planta já sem muita vitalidade nos jardins literários dos EUA e da Europa, pois esses autores estão uma oitava acima da mistura européia e norte-americana.

Ressentimento, não

Se autores africanos, asiáticos e latino-americanos tivessem um por cento da visibilidade de que os escritores dessas duas instâncias hegemônicas desfrutam há muitas décadas no mundo, conhecidos romancistas da Europa e dos EUA virariam notas de pé de página. Para o gosto do signatário, a solitária exceção no trio escolhido é Umberto Eco, mas apenas pelo romance O Nome da Rosa, um dos momentos mais altos da prosa de ficção européia no século passado, pois de resto o italiano vale a pena ser lido por seus ensaios e crônicas, não pelos romances que publicou depois de O Nome da Rosa.

Este artigo é de um romancista brasileiro. Os leitores têm todo o direito de se perguntarem se não vem embutido um quê de ressentimento. Como os leitores são multidão e os amigos verdadeiros são poucos, é justo que a desconfiança tenha vez, pois em geral os leitores não conhecem os escritores que lêem. Então, de nada valerá declarar aqui que o autor destas linhas assumirá muitos outros sentimentos, incluindo sentimentos desarrumados, mas não o ressentimento.

Liturgia do mistério

De vez em quando algumas tristezas literárias, sim. No Natal deste ano, a Folha de S.Paulo convidou quatro escritores para escrever um conto de natal, entre os quais Carlos Heitor Cony e Marçal Aquino, prosadores de reconhecido valor. Mas não há ponto de vista que sustente, em primeiro lugar, a razão de serem aqueles os convidados, e em segundo, a razão de o maior jornal do Brasil oferecer leituras tão dispensáveis. Se o jornal queria contos, chamasse contistas, mas é provável que suas editorias desconheçam – como de resto, as dos outros jornais também – quem seja referência no conto brasileiro contemporâneo. O certo é aqueles quatro não são.

Por que ilustro esta tristeza literária com a outra, maior, de ver badalados, por razões extra-literárias, livros que negam a existência de Deus? Porque o Natal, sem Deus, não é Natal. Todo mundo sabe disso e, mesmo ateus convictos, como que amolecem o bestunto diante do mistério. Mistério é aquilo que não entendemos. Na verdade, como ensina a etimologia, mistério é aquilo que não pode sequer ser dito, quanto mais compreendido. A palavra veio do grego mystérion, ligada ao verbo myo, fechar. Nas cerimônias religiosas, em ambientes fechados, envolvendo certos segredos dos ritos, a liturgia do mistério resplandecia e ainda resplandece. Mas para melhor entender o mistério, fechamos os olhos e a boca.

Não se chuta cachorro morto

Vivemos, porém, num mundo em que quase todos acham que tudo pode ser visto e dito. O signatário, escritor (ofício preferencial) e professor (a segunda coisa que mais gosta de fazer), que exerce simultaneamente os dois ofícios há mais de trinta anos, não cala porque não consente, mas percebe que estão cada vez mais ausentes as condições para um debate. Então, talvez o melhor é fazer, como tantos já o fazem, seja um retiro espiritual e deixar de dar atenção a tamanhas banalidades da mídia.

De vez em quando, na História, alguns espíritos tidos por esclarecidos voltam ao tema da negação da existência de Deus. O caso mais lembrado é o do filósofo alemão Nietzsche, o qual, em O AntiCristo, viu no cristianismo um inimigo a combater. Com efeito, como explica Voltaire Schilling, uma das mais belas inteligências brasileiras em ardente atividade, como enfrentar um inimigo que, ofendido, oferece ao agressor a outra face? Pois é, mas é este o gesto, com suas notáveis exceções, que está na base da paz que celebramos no dia 1º de janeiro de todo Ano Novo, Dia da Fraternidade Universal.

E que me perdoem os intelectuais que se esforçam por negar a existência de Deus, que eu já os perdoei também, se discrepo. Sabe por que eles escrevem com tanta fúria? Porque não se chuta cachorro morto. Qualquer frase da Torá, da Bíblia, do Evangelho de São Mateus, ou uma surata do Corão, vale mais do que os livros que eles escreveram.

Vacas de prata e pessoas de lata

E, pel´amor de Deus – esqueci, eles não tem este amor – por que usar a ciência para provar que Deus não existe? É tempo perdido. Esqueceram a lição de Engels: "A ciência é a eliminação progressiva do erro", ou, vista de outro mirante, a cada dia um erro menor substitui o erro anterior, maior. Com efeito, ninguém prova que Deus existe, mas ninguém prova que Ele não existe. Se você está num quarto escuro com a pessoa amada, você não a vê, mas sente que ela está ali. E, às vezes, ela não está – viajou, morreu, não pôde vir, não pode estar ali – mas você continua sentindo a sua presença do mesmo jeito.

Eu não acho os ateus infelizes, não. Eu acho infelizes aqueles que tentam provar que estão certos e que os outros, coitados, estão errados! Deus me livre de tal presunção. Isto aqui é uma página de opiniões. Escrevemos e enquanto isso o tempo, talvez nosso maior problema e nosso maior mistério, segue seu curso sem que o compreendamos. Sei que Freud é muito respeitado, mas talvez devêssemos dar mais atenção a um de seus discípulos, depois dissidente, Viktor Frankl, que defendia ser mais decisivo o sentido da existência do que o princípio do prazer.

Quem quer muito um mundo sem Deus, talvez o que queira seja um mundo repleto de deuses, pois os bezerros de ouro, e sobretudo as vacas de prata e as pessoas de lata estão se multiplicando sem parar.

Se nenhuma das leituras sugeridas vale a pena, que tal Onze Livros de Metamorfose, obra mais conhecida como O Asno de Ouro, de Lucius Apuleius?


POST POST

No retorno ao ofício, carteiro e poeta, aos pedaços, ainda resistem.

Só Deus sabe até quando e como.

O artigo do Deonísio, quem conheci falando sobre a Universidade São Carlos recém nascida em 1982, no Unificado em Porto Alegre, merece leitura e reflexão, mesmo discordando de um certo comodismo do autor quando afirma que "ninguém prova que Deus existe".

Na verdade, a inexistência de Deus é que é uma impossibilidade pela simples razão de que as possibilidades de ser o contrário são majoritárias, infinitas.

É como acreditar que no universo inteiro não existe nenhum planeta habitado, igualzinho ao nosso.

É uma impossibilidade matemática.

É como uma luta que nunca começa, como certos governantes que inauguram placas do início de obras que nunca terminam.

Ou certos intelectuais que pedem que esqueçamos o que escreveram.

É o que está sempre além de tudo o que já foi percebido.

É só comparar o espaço ocupado e conhecido por nós com o resto do cosmos.

Quanto por cento representamos ou conhecemos? Quanto desconhecemos?

Onde está a fronteira? Onde o meio? O começo? Fim?


Tem gente que ainda não se deu conta que a palavra Deus define a geração e a gestão perfeitas da vida em todas as suas formas e manifestações, só Nela a liberdade responsável existe em plenitude.

A palavra Deus separa o joio do trigo, une ao inimigo, abraça o amigo.

Na palavra Deus a humanidade deposita sua melhor semântica, seus melhores sentidos, seus projetos evolutivos; a considera como a palavra na linha do horizonte que é alvorada e poente ao mesmo tempo, que sempre está conosco e nós apenas estamos com ela quando ela nos alcança, como o sol e a chuva, para ficar em dois exemplos.

É como fugir do mundo e dar de cara com a vida.

Muita calma nessa hora e humildade para admitir: por mais que tentemos, o máximo que conseguimos é reconhecer que a idéia que fazemos Dele não altera em absolutamente nada a Sua condição, só a nossa.

Um poeta concreto revela o fato: dEUs.

É assim que interpretamos o sentido da palavra com nossa atitude.

Nessas horas o ditado do bom entendedor basta.

Resumindo, não acreditar em Deus, em primeiro lugar, é um direito do ateu.

O problema é sustentar o argumento de que um livro é resultado da explosão em uma tipografia cujos tipos caem cada um em seu lugar, editados, revisados, diagramados e encadernados com engenho e arte, como diria Carlos Domundo de Andrade, pelo nada, pela inexistência de uma inteligência superior ativa.

A ciência humana não cria nada, apenas descobre leis e substâncias naturais preexistentes.

A pergunta não é se Deus existe.

É quem criou o mundo do qual fazemos parte.

Não dá para achar que tudo existe por combustão espontânea.

Mas onde se esconde a razão pela qual alguns seres humanos evitam reconhecer pública e intimamente a existência de um Criador?

Pode ser porque Ele é a única garantia de que cada crime por ato ou pensamento que cometemos todos os dias jamais fica impune, que toda a injustiça será transformada em justiça e que nós mesmos somos os instrumentos para que isso se realize com maior ou menor intensidade.

Falo dos crimes perfeitos que a justiça humana não alcança.

Mas há outra razão: os autoproclamados representantes de Deus no planeta.

É aí que mora o perigo.

Nesse caso, a receita é simples, é só fazer como Cristo, vencer os vendilhões do templo no debate e na militância e conquistar democraticamente o direito de construir o paraíso na terra do povo, pelo povo e para o povo.

E reconhecer que ambos, Deus e povo, têm a mesma voz e falam a mesma língua.

Essa é a lógica de "a maioria vence".

Nem que para isso tenha que aceitar a vitória do adversário, hastear como bandeira o próprio corpo numa cruz para provar que é possível ceder tudo sem retroceder nunca e que para morrer por uma causa é preciso ter vivido por ela.

Afinal, "a ciência é a eliminição progressiva do erro".

Assim como se reconhece a árvore pelo fruto e o autor pela obra, o leitor e o consumidor da quitanda são identificados pelos mesmos critérios.


O juízo de valor que fazemos sobre os outros é o mesmo que cabe como uma luva sobre nós.

Deus, como Poeta dos poetas, diria melhor e transformaria tudo diminuindo o zoom na nossa lente espiritual, revelando a totalidade e a parte ao mesmo tempo, acendendo os fios invisíveis que ligam cada um de nós aos outros, incluindo nossas obras mentais e os resultados físicos deixados por elas pelo caminho ou impressas em cada ser tocado ou influenciado de alguma forma por nossas palavras e gestos.

E pelo vazio produzido pela diferença entre o que sai pela nossa boca e o que brota realmente de nós, que só cada um sabe, no caso dos ateus.

Além Dele, é claro, que tem acesso aos registros da nossa caixa-preta, nossa consciência, no caso dos que acham natural sua existência e reconhecem sua perfeição.

E o mais importante: que estamos no caminho evolutivo conscientes a respeito da responsabilidade que temos sobre a energia que movimentamos e o espaço que ocupamos.

Não vai dar para dizer que não sabíamos.

O preconceito científico não vai interceder por nós na hora da onça beber água e da alma devolver o currículo vital devidamente preenchido, cumprindo a burocracia mais importante das nossas vidas.

No fundo, no fundo, esse programinha já vem instalado em nosso menu iniciar, ele ativa uma intuição leve o suficiente para ser notada e densa o necessário para não passar despercebida.

Nós é que tentamos encontrar na ciência o que só a boca de um filho pode revelar e vice-versa.

Ou buscamos na morte o que só a vida pode oferecer e perguntamos para a vida o que só depois de morrer vamos saber.
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5 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

Carteiro. Poeta.
A Folha de S.Paulo divulgou recentemente uma pesquisa que mostrou o óbvio, o número de ateus e agnósticos está aumentando no Brasil. Somos cerca de 10% da população e esse número progride geometricamente. Há 5 anos eramos 5%. Um dia dominaremos o mundo que estará definitivamente livre das religiões com ou sem deus. O RS é um dos estados com menor número de ateus e agnósticos. A Bahia, por incrível que pareça, está na vanguarda.

Anônimo disse...

Então, que viva a Bahia!

armando

Eugênio disse...

Eduardo, entrei nesse debate e minhas observações estão entre o teu texto, precedidas de um tracejado. Espero ñ ter pegado pesado.

Saudações

Eugênio

POST SCRIPT

No retorno ao ofício, carteiro e poeta, aos pedaços, ainda resistem.

Só Deus sabe até quando e como.

-----Sabe mesmo?

O artigo do Deonísio, quem conheci falando sobre a Universidade São Carlos recém nascida em 1982, no Unificado em Porto Alegre, merece leitura e reflexão, mesmo discordando de um certo comodismo do autor quando afirma que "ninguém prova que Deus existe".

-----Por q seria "comodismo do autor" afirmar que "ninguém prova que Deus existe"?

Na verdade, a inexistência de Deus é que é uma impossibilidade pela simples razão de que as possibilidades de ser o contrário são majoritárias, infinitas.

-----Quem estabeleceu isso. As possibilidades, na melhor das hipóteses para os q acreditam, são iguais nos dois sentidos.

É como acreditar que no universo inteiro não existe nenhum planeta habitado, igualzinho ao nosso.

-----Acho que essa analogia não cabe, pois daí teríamos de aceitar a existência de vários deuses, também. Por que essa possibilidade só estaria reduzida aos planetas?

É uma impossibilidade matemática.

-----Quem fez essa conta?

É como uma luta que nunca começa, como certos governantes que inauguram placas do início de obras que nunca terminam.

Ou certos intelectuais que pedem que esqueçamos o que escreveram.

É o que está sempre além de tudo o que já foi percebido.

É só comparar o espaço ocupado e conhecido por nós com o resto do cosmos.

-----Afirmar a existência de Deus é uma temeridade e, de certa forma, uma prepotência, na medida que projetamos nossa visão antropomórfica para o resto do cosmo, do qual conhecemos, proporcionalmente, menos que uma molécula de um grão de poeira. Respeitando as probabilidades matemáticas d q possam existir outras formas de vida inteligente no univeso, q garantia temos de q elas tenham o mesmo conceito d divindade? Baita temeridade, ñ achas? Não estaremos reeditando a nossa velha mania de empurrar goela abaixo as verdades "reveladas", agora em escala cósmica?

Quanto por cento representamos ou conhecemos? Quanto desconhecemos?

Onde está a fronteira? Onde o meio? O começo? Fim?

-----Essas são perguntas fundamentais e a resposta a elas, deve ser, sobretudo, a prudência. O q nós realmente conhecemos para afirmar peremptóriamente qualquer coisa?

Tem gente que ainda não se deu conta que a palavra Deus define a geração e a gestão perfeitas da vida em todas as suas formas e manifestações, só Nela a liberdade responsável existe em plenitude.

-----Não entendi bem se este é um conceito poético ou uma afirmação. Sendo uma afirmação, quer me parecer que quem a enunciou aceita a idéia de Deus como gerador e gestor. Defende incondicionalmente q foi pela sua "mão" que tudo irrompeu na existência. Deus visto dessa maneira é um conceito, sem dúvida, muito cômodo, por que não questiona alguns aspectos fundamentais da "existência", como por ex, o que havia antes dele. Os que acreditam dizem, pelo menos em relação a Deus, q o antes ñ existia posto q ele sempre existiu. Mas, curiosamente, não aceitam essa mesma idéia de eternidade para as coisas q ele supostamente criou. E ñ aceitam, pelo simples fato d q o universo é "complexo" demais para ter se criado sozinho. Isso é o q ouço corriqueiramente quando entro nesse debate.
Sendo o universo complexo demais para ter se "criado", necessitou de deus para dar-lhe "vida". Aí reside uma intransponível contradição: para ter criado o universo, deus precisaria ser tão complexo quanto ele, o universo, e infinitamente maior, para abarcar a sua própria complexidade. A observaçao de tudo o q ocorre na natureza q nos cerca, tem demontrado q todos os fenômenos se dão pela via mais simples, ou dito de outra forma, a natureza procura o caminho mais fácil para seguir seu curso. Assim, seguindo essa lógica, a complexidade menor, o universo, teria mais chance de irromper na existência do que a complexidade maior que seria seu criador. Colocar deus como ponto de partida para todas as coisas, é simplesmente empurrar com a barriga um problema q continua insolúvel, ou seja, quando tudo realmente começou. O contraponto disso é a acetação dogmática de uma "verdade" revelada, q eu espero ñ ser o caso aqui.

A palavra Deus separa o joio do trigo, une ao inimigo, abraça o amigo.

Na palavra Deus a humanidade deposita sua melhor semântica, seus melhores sentidos, seus projetos evolutivos; a considera como a palavra na linha do horizonte que é alvorada e poente ao mesmo tempo, que sempre está conosco e nós apenas estamos com ela quando ela nos alcança, como o sol e a chuva, para ficar em dois exemplos.

É como fugir do mundo e dar de cara com a vida.

Muita calma nessa hora e humildade para admitir: por mais que tentemos, o máximo que conseguimos é reconhecer que a idéia que fazemos Dele não altera em absolutamente nada a Sua condição, só a nossa.

-----Sendo a idéia q fazemos dele um dogma, realmente nossa condição ñ se alteraria, o q ñ é o caso, visto q boa parte da luta intelectual q a humanidade trava, ou a parte pensante dela, tem sido no sentido de demonstrar o quanto ñ podemos nos render ao fatalismo da vontade "divina". Quando o homem, vencendo o temor irracional, apanhou o primeiro graveto com fogo, rompeu, de certa forma, aquele vínculo q o prendia ao mágico e ao intangível, para exercer o seu domínio sobre a natureza. Quando Benjamim Franklin ergueu sua pandorga naquela noite de tempestade, pôs o raio a serviço do conhecimento, posto q este meteoro até então, só estivera a serviço dos deuses. Poderia citar centenas d outros exemplos pertinentes.

Um poeta concreto revela o fato: dEUs.

É assim que interpretamos o sentido da palavra com nossa atitude.

Nessas horas o ditado do bom entendedor basta.

-----Quem é o bom entendedor, aquele q acredita ou aquele q duvida?

Resumindo, não acreditar em Deus, em primeiro lugar, é um direito do ateu.

-----Indiscutivelmente!!!!

O problema é sustentar o argumento de que um livro é resultado da explosão em uma tipografia cujos tipos caem cada um em seu lugar, editados, revisados, diagramados e encadernados com engenho e arte, como diria Carlos Domundo de Andrade, pelo nada, pela inexistência de uma inteligência superior ativa.

-----Guardada as proporções em relação as "complexidades" que citei acima, o livro que se edita sozinho não me parece uma idéia tão improvável.

A ciência humana não cria nada, apenas descobre leis e substâncias naturais preexistentes.

------Aqui há um reducionismo muito perigoso. Mesmo questionando-se o papel da ciência, é preciso reconhecer que quem nos troxe até aqui, prara o bem e para o mal, foi ela. Portanto, a ciência é o substrato d tudo aquilo q é concreto em nossas vidas. Eu diria mais: em muitos casos é o que torna possível a nossa vida. E a sua importância aumenta se a encararmos, não como uma mera ferramenta para produzir comodidades materias, mas como um processo q é fundamental na compreeção da nossa existência e na do universo que nos cerca.
As coisas colocadas dessa maneira, ou seja, que a ciência "apenas descobre leis e substâncias naturais preexistentes" dão a impressão d q o avanço na direção do conhecimento se deu de forma tranqüila e natural. Isso não é verdade. Galileu Galilei q o diga, só para citar um caso.
A ciência, ao contrário da religião, a quem o conceito de divindade está intimamente ligado, é dinâmica e dialética. Um cientista é capaz de defender com unhas e dentes uma determinada teoria. Até que alguém apareça com uma nova, que melhor explique um determinado fenômeno ou um conjunto deles. Prontamente ele abandona as velhas idéias e adota a nova, em busca de uma oútra teoria que aprofunde ainda mais o conhecimento, num infinito processo dialético.
Esse é o divisor de águas entre ciência e religião, entre o conhecimento dinâmico e o dogma imobilizante, ao qual o conceito de deus, por menos q se queira admitir, tbém está intimamente ligado.

A pergunta não é se Deus existe.

É quem criou o mundo do qual fazemos parte.

Não dá para achar que tudo existe por combustão espontânea.

-----Mas é praticamente essa a idéia que se aceita em relação a deus!!!!

Mas onde se esconde a razão pela qual alguns seres humanos evitam reconhecer pública e intimamente a existência de um Criador?

Pode ser porque Ele é a única garantia de que cada crime por ato ou pensamento que cometemos todos os dias jamais fica impune, que toda a injustiça será transformada em justiça e que nós mesmos somos os instrumentos para que isso se realize com maior ou menor intensidade.

Falo dos crimes perfeitos que a justiça humana não alcança.

-----Isso equivale a acreditar q existe no fim do túnel uma justiça divina q a todos os pecados punirá com o padecimento no inferno. Da minha parte, prefiro, ainda, a justiça dos homens, por mais falhas q ela possa ter.


Mas há outra razão: os autoproclamados representantes de Deus no planeta.

É aí que mora o perigo.

Nesse caso, a receita é simples, é só fazer como Cristo, vencer os vendilhões do templo no debate e na militância e conquistar democraticamente o direito de construir o paraíso na terra do povo, pelo povo e para o povo.

-----Bem pelo contrário!!! Isso é complicadíssimo e a prova nos é dada todo o dia."Vencer os vendilhões do templo no debate e na militância e conquistar democraticamente o direito de construir o paraíso na terra do povo, pelo povo e para o povo" é uma tarefa
dantesca e eminentemente humana e nada tem a ver com o divino. Aliás, ele é um grande obstáculo a ser vencido.

E reconhecer que ambos, Deus e povo, têm a mesma voz e falam a mesma língua.

-----Quem de fato representa deus...ou é representado por ele? O povo ou os "vendilhões do templo"?

Essa é a lógica de "a maioria vence".

-----Pelas minhas contas a "maioria" continua perdendo. A ñ ser q haja um dado novo q eu desconheça...

Nem que para isso tenha que aceitar a vitória do adversário, hastear como bandeira o próprio corpo numa cruz para provar que é possível ceder tudo sem retroceder nunca e que para morrer por uma causa é preciso ter vivido por ela.

-----Pode haver prova mais contundente dessa derrota do q "hastear como bandeira o próprio corpo numa cruz"???????

Afinal, "a ciência é a eliminição progressiva do erro".

-----Claro q sim!!!!! E isso ñ é pouco!!!!! Aliás, a história da humanidade tem sido, com avanços e recuos, buscar exatamente a "eliminição progressiva do erro". Não existem saídas mágicas.

Assim como se reconhece a árvore pelo fruto e o autor pela obra, o leitor e o consumidor da quitanda são identificados pelos mesmos critérios.

O juízo de valor que fazemos sobre os outros é o mesmo que cabe como uma luva sobre nós.

Deus, como Poeta dos poetas, diria melhor e transformaria tudo diminuindo o zoom na nossa lente espiritual, revelando a totalidade e a parte ao mesmo tempo, acendendo os fios invisíveis que ligam cada um de nós aos outros, incluindo nossas obras mentais e os resultados físicos deixados por elas pelo caminho ou impressas em cada ser tocado ou influenciado de alguma forma por nossas palavras e gestos.

E pelo vazio produzido pela diferença entre o que sai pela nossa boca e o que brota realmente de nós, que só cada um sabe, no caso dos ateus.

-----Penso q não existe um "vazio produzido pela diferença entre o que sai pela" minha "boca e o que brota realmente de" mim, pelo menos ñ no meu caso como ateu. O que eu digo é o q eu penso e vice-versa.

Além Dele, é claro, que tem acesso aos registros da nossa caixa-preta, nossa consciência, no caso dos que acham natural sua existência e reconhecem sua perfeição.

-----Perfeição??? Toda a vez q ouço essa palavra ligada a idéia de deus me vem a mente o mito de Abraão, sem duvida um dos mais cruéis da mitologia das religiões. E talvez, até por isso, profundamente revelador. Por q deus pediu a Abraão q sacrificasse seu filho? Para testar sua obediência? Mas sendo ele deus deveria saber de antemão se Abraão obedeceria ou ñ. Se tinha dúvidas, ñ era deus. E ñ tinha, era um sádico, pois só alguém assim pediria tal sacrifício, Tbém, nesse cado, ñ era deus, pois q deus ñ poderia ser tão mesquinho. O mesmo vale para o mito de Adão e Eva e por aí a fora.
A questão da perfeição dá o que pensar. Em se aceitando a existencia desse ser supremo - e perfeito - por conseguinte, é de se supor q ele fosse capaz de criar uma obra irretocável. Ñ foi o caso da humanidade, que nos dá bons exemplos disto a todo o momento. E por favor, q ninguém me venha com o "argumento" d q os homens tem livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal. Por q deus ñ fez um homem perfeito, q ñ "pecasse"? Ou será q ele fez uma criatura q escapou do seu controle e o desafiou na desobediência? Voltamos, assim, aos mitos. Quando coloco essa questão, a resposta padrão - e hilariante, pelo menos para mim, por q as pessoas dizem isso com a maior convicção - é a de q se o homem fosse perfeito "não teria graça".
Mas deixemos a humanidade de lado e vamos divagar pelo universo. Por q deus o teria criado? Para provar o que a quem? Para provar a si mesmo q era capaz de tal empreitada? Sendo ele deus, poderia simplesmente ñ ter feito nada, deixado tudo como estava, com a matéria no seu estado de "morte térmica" com as patículas completamente inertes, próximas ao zero absoluto, estado para o qual voltaremos em algum momento no futuro, segundo alguns físicos e independentemente da vontade divina. Esse é um quadro tão "deprimente" que até alguns cientistas se recusam a aceitá-lo. De uma perspectiva humana, essa reação é compreensível. Mas também ñ podemos reduzir o universo apenas a nossa capacidade de percebe-lo. Se bem q existe uma corrente de físicos e cientistas q defende a idéia d q o universo só existe por q tem alguém q o "constata" q o "observa", pois do contrário ñ teria sentido. Seria como se ele existisse para o nada.
Mas fazer alguma coisa para o nada, até para deus seria um conceito difícil de aceitar. Teria ele ñ resistido a tentação de exibir sua criação e num lapso de vaidade, (uma atitude nada divina, convenhamos), cometeu a imprudência de gerar uma criatura q ñ se conformou em simplismente admirar, mas tbém quis desvendar os segredos d tal obra, para q ela - a criatura - se tornasse tão poderosa como seu criador? Que erro crasso!!! E se errou ñ é deus, por q ñ haveria lugar para erro em sua perfeição.
Assim, o "ñ ter feito nada", traria muitas vantagens, sendo q a mais imediata delas seria a ñ existência de críticos a questionar sua "obra", como é o meu caso, por ex.
Talvez, quem ler essa texto, diga q eu atribuo a deus um comportamento demasiado "humano". Bom, foi assim que aprendi na escola primária d orientaçõa católica, onde estudei até o quarto ano. Deus me foi apresentado como um senhor barbudo, sentado num trono no céu, com anginhos voandoa a sua volta e sobre a cabeça, flutuando, ora um triangulo, ora um círculo, ambos luminosos. Tenho alguns "santinhos" guardados q provam isso e toda a iconografia religiosa está aí para quem quiser ver. Tbém me foi dito q fomos criados a sua imagem e semelhança, mas logo fui percebendo q, na verdade, tinha sido o contrário. Esse era o deus q eu conhecia.
De uns tempos para cá, tenho ouvido uns papos meio estranhos, de q deus já ñ é mais o tal senhor sentado no tono divino e sim uma energia q está em tudo e em todos, um fluxo, uma emanação. Deus parece ter perdido sua aparência antropomórfica e se diluído num eflúvio de energia misteriosa. O curioso é q esses novo "visual" se parece em muito com alguns conceitos da física quantica, o que faz com q alguns espertalhões, outros, apressadinhos e muitos ingênuos, saiam por aí bradando q finalmente a ciência se aproximou da religião. Não quero desiludir ninguém, mas quem observa o trabalho da ciência sabe q ela sempre trilhou um caminho próprio e independente, livre dos dogmatismos místicos. O q eu percebo sim, é uma tentativa das religiões em geral de se adaptarem a um mundo em vertiginosa transformação, onde, pelo menos uma parte mais esclarecida da população, ñ aceita mais a "verdade revelada". Isso faz com q comecem a importar para dentro de suas doutrinas, conceitos conveniente e descontextualizadamente "pinçados" da ciência.

E o mais importante: que estamos no caminho evolutivo conscientes a respeito da responsabilidade que temos sobre a energia que movimentamos e o espaço que ocupamos.

Não vai dar para dizer que não sabíamos.

O preconceito científico não vai interceder por nós na hora da onça beber água e da alma devolver o currículo vital devidamente preenchido, cumprindo a burocracia mais importante das nossas vidas.

-----Opa, opa, opa!!! Aqui, de novo, um atalho perigoso. O "preconceito científico" já intercedeu por muita gente naquel momento em q o inevitável parecia inevitável. Acho q ñ preciso enumerrar exemplos aqui. Ou preciso?
O medo da morte e do desconhecido ñ invalidam o papel da ciência. Qualquer um, diante da morte como final de sua existência, pode invocar deus, mesmo um ateu de carteirinha. Mas isso ñ significa uma conversão, só o medo da morte. E nem a invocação de deus nesse momento, livra ninguém do inexorável. Portanto....

No fundo, no fundo, esse programinha já vem instalado em nosso menu iniciar, ele ativa uma intuição leve o suficiente para ser notada e densa o necessário para não passar despercebida.

Nós é que tentamos encontrar na ciência o que só a boca de um filho pode revelar e vice-versa.

-----Pois é e vice-versa, filho e ciência, cada um no seu papel.

Ou buscamos na morte o que só a vida pode oferecer e perguntamos para a vida o que só depois de morrer vamos saber.

-----Eu ñ busco nada na morte, pois ñ tenho nenhuma garantia d q ela me dará qualquer resposta. Vou buscando, as q consigo, em vida. Mas sei q ela virá, inevitável. Só espero q da forma mais tranqüila possível. E dignamente, como minha mãe, que deixou de acreditar e sustentou isso até o fim.
No mais, coerente com a minha crença no processo dialético, sempre estou disposto a revisar minha posiçao, desde q me seja apresentada uma prova razoável da existência de qualquer divindade. Alguma equação, quem sabe, que toda a vez que tiver seus termos postos a prova, me leve ao mesmo resultado, ou seja, o encontro com o divino. Será q é pedir muito?

Eduardo Martinez disse...

Caríssimo Eugênio, não pegou pesado não. Mas é claro que para continuar esse debate tenho que, no mínimo, ler e reler tuas ponderações muitas vezes ainda. Além de identificar e corrigir quaisquer presunções minhas, como não ter deixado claro, se for o caso, ainda não identifiquei, o que é poesia e o que é posição "política", digamos assim. Acabei de ler tuas observações e pelo respeito e admiração que tenho por ti, o mínimo que devo continuar fazendo é refletir profundamente sobre os pontos nos quais divergimos. Numa primeira leitura, são poucas nossas divergências sobre o tema, por incrível que pareça, pois ambos temos sérias diferenças com os dogmas religiosos e seus gestores "ateus" (porque se acreditassem no Deus que afirmam representar não seriam tão diabólicos). A princípio, na minha sincera ignorância, a palavra Deus significa o conjunto dos valores humanos que produzem avanços civilizatórios e não o uso obscuro que é dado a ela pelos "mercadores do templo", até porque (está no meu orkut) minha igreja é o planeta terra e minha religião é o ambiente inteiro. A religião (manipulada por seres humanos sem ética, como a mídia) é o ópio do povo, sem dúvida, porque altera a capacidade de raciocío. Acho que temos muito mais convergências sobre o tema do que parece, o que muda são os significados de algumas palavras para um e outro. O mais importante é que a tua honestidade intelectual é estimulante e comovente, meu caro. Na verdade, minha manifestação a respeito do teu comentário no Diário Gauche foi uma tentativa de ser honesto. Pelo privilégio de fazer parte desse grupo na blogosfera, senti como dever de consciência mostrar exatamente quem sou. Incluindo as prováveis contradições entre carteiro e poeta, embalagem e conteúdo. Eu não poderia deixar de dizer o que penso sobre essa questão, que de forma brilhante tu questionas, e também sobre o aborto. Reafirmo que por uma questão de lealdade, com todos os meus companheiros de blogosfera, não poderia deixar de me mostrar como sou. E já valeu a pena. Do contrário, não teria tido a oportunidade de aprender, reaprender, revisar e consolidar minhas convicções. Há bração...

Anônimo disse...

Sem deus, vale dizer, sem ignorância e sem medo. Essas crendices ficaram péssimas na Idade Média, piores hoje.

O homem crias os mitos, e depois se torna escravo deles.

armando, de Sampa, tomada pela elite predadora que costuma ir às igrejas e orar...