sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESCRITA CERTA 
POR LINHA RETA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


POST POST


Não poderia haver melhor postagem de retorno de um carteiro de poeta do que esse Poema em linha reta assinado por Fernando Pessoa, inspirado pelo "espírito" Álvaro de Campos. 
Até porque ele transmite com fidelidade literária e metafórica as experiências vividas na carne por este reles carteiro nos últimos anos.

Eu volto determinado a ser mais agressivo com os pragmáticos com pinta de politicamente corretos, disposto à luta com os críticos teóricos que não assumem a responsabilidade pelo suposto resultado de suas verdades absolutas.

Mas não se enganem. Eu levo desaforo para casa. E ofereço a outra face. Quem não leva desaforo para casa, não tem casa, tem esconderijo. Quem responde a ofensa com outra ofensa, não acredita que outro mundo é possível. Na verdade, quer o mesmo mundo velho cheio de fronteiras para os outros, desde que seus privilégios diplomáticos sejam garantidos.

Não estou falando só da velha e da nova direitas deste país. Falo também da direita que vive dentro da esquerda, sob máscaras retóricas.

Agora, só acredito em homens capazes de suportar o que o povo suporta, como Lula. E em mulheres como Dilma, que saem da tortura para entrar na história.

Não acredito mais em quem só comprova o que diz em laboratórios acadêmicos ou pesquisas por amostragem.

Enfim, o carteiro do poeta está de volta por linhas tortas e retas.
.

4 comentários:

JÚLIO CÉSAR SCHMITT GARCIA disse...

Beleza de postagem! Parabéns, camarada!

adeli sell disse...

olá martinez,
belo trabalho
é isto mesmo
queremos ver humanos
não semideuses
abraços de porto alegre
adeli sell

Eduardo Martinez disse...

Gracias, Adeli.

É isso mesmo, agora só acredito em quem viaja com uma muda de roupa só e fica de calção emprestado durante a noite para dar tempo de lavar e secar, para recomeçar no dia seguinte, de porta em porta, a construção do sonho de mudar o país e ver, hoje, que esse sonho está mudando o mundo.

Há braços...

Anônimo disse...

o carteiro se foi e deixou o poeta
a poesia que sintetiza o quotidiano
daqueles comprometidos com o amanhã